Série A Princesa - Capítulo 1

fevereiro 24, 2026


 Minha mãe me dizia que se acreditarmos, podemos fazer o impossível acontecer. Então eu decidi trazer ela de volta.

♫⋆。 Escutando…

Hoje, quando sai escondida pela cozinha, aproveitei para pegar um pão dormido e alguns pedaços de queijo. Não sei quanto tempo vou demorar para encontrar a trilha, mas, não deve demorar. Sigo em frente apenas com minha intuição e resquícios de lembrança. Minha mãe costumava me levar por trilhas na floresta até a nossa clareira e essa era a que usávamos com maior frequência. Flashes de memórias ainda muito vivas apareciam na minha mente das longas conversas que tínhamos em meio as árvores.

Quando completei 8 anos, aconteceu. Ela desapareceu. Acordei já com os gritos do meu pai e naquele momento, ainda enrolada nas cobertas, soube que algo havia acontecido com minha mãe. Não havia rastros a serem seguidos, culpados para interrogar, malas feitas. Tudo estava no lugar. Seu caderno, seus sapatos, seu relicário, presente do meu pai que ela levava sempre junto ao coração. Eu não conseguia compreender.

A luz dourada finalmente encontrou passagem entre as árvores e cheguei à clareira. Intocada, como se tudo estivesse exatamente como a deixamos 10 anos atrás. Eu quase a podia sentir me observando do ponto onde sempre se sentava nas raízes altas do outro lado. Inspirei fundo e fechei os olhos, apenas sentindo os raios do sol e a umidade da floresta sob meus pés, livres da sandália que abandonei em algum lugar no meio da trilha. Meus dedos afundaram na terra gelada de orvalho e o cheiro de verde inundou meus sentidos. Uma brisa acariciou meus cabelos e abri os olhos.

Foi então que vi, alguém estava me observando. Como que vindo do outro lado da clareira, parou a poucos passos do espaço aberto, me observando com olhos atentos. Meus sentidos se aguçaram instantâneamente e um calafrio desceu por minha espinha.

- Como você escapou?

Perguntou o desconhecido, se aproximando. Dei alguns passos para trás, sem saber o que responder.

- Você tem que voltar, antes que descubram e te matem.

Ele acelerou, vindo na minha direção e comecei a andar para trás, buscando o caminho por onde vim. Não fui rápida o suficiente e sua mão gelada se fechou no meu braço. Tentei me desvencilhar mas ele é mais forte que eu.

- O que você está dizendo, eles quem? Me solte, eu não estou entendendo.

Uma dor de cabeça aguda me tirou o ar e apertei com força minha cabeça, tentando arrancar a dor junto com meus cabelos. Mas, como surgiu, ela simplesmente, se foi… nada. Abri os olhos desorientada e de repente o rapaz estava enorme e me segurava em suas mãos com uma delicadeza estranha.

- Temos que ir, antes que notem sua ausência.

Nada fazia sentido, por que tudo estava tão maior? Eu estava sendo carregada e o cenário ao meu redor mudava com uma velocidade muito alta em borrões de tons verde. Não demorou muito e já estávamos novamente entre árvores, mas, eu não reconhecia esse lado da floresta. Um desespero começou a tomar conta de mim, subindo um nó pela garganta. Comecei a me debater, mas os dedos se fecharam um pouco mais ao meu redor.

- Onde você está me levando?

- Pare de se remexer ou vai acabar se machucando. Você está confusa, calma que já vamos chegar em casa.

- Quem é você?

Nesse momento, ele parou e me olhou com atenção. O olhar mudou de surpresa para raiva.

- O que eles fizeram com você? Eles te machucaram?

- Como vou saber de quem você está falando se não me explica?

Eu já estava começando a ficar irritada. Claramente ele estava me confundindo com alguém e eu não queria me envolver nessa bagunça.

- Meredith, fale comigo, o que eles fizeram com você?

Meredith? Aquele nome me paralizou. Ele realmente estava me confundindo com alguém. E por uma coincidência assustadora, essa pessoa tinha o nome da minha mãe. Ele conhecia minha mãe. Parece que sabia até mais do que isso, sabia onde ela estava, com quem estava. Tenho que me aproveitar disso… Se ele desconfiar que pegou a pessoa errada, vai me abandonar aqui.

- Estou com muita dor de cabeça. Estou confusa.

- Eu sabia que não podia confiar neles. Você também sabia. Vamos voltar agora, você descansa e vai ficar melhor.

Fiquei em silêncio o restante do caminho. Tentei acompanhar as mudanças de rotas, pontos de referência, mas, tudo passava tão rápido e estava tão distorcido que precisei fechar os olhos para não ficar tonta e enjoada.

Quando chegamos perto de uma pequena casinha de madeira, ele diminuiu a velocidade e respirou fundo. Abriu a porta empenada de madeira e um calor aconchegante me tomou por completo. A sala era pequena, mas, tão acolhedora e tinha cheiro de flores. Ervas secando em uma janela que parecia pertencer à uma pequena cozinha, que tinha uma mesa de madeira, algumas cadeiras e uma pequena lareira com o fogo crepitante. Era daqui que vinha o calor. Ele me apoiou com delicadeza na mesa e finalmente, o choque me acometeu. Olhei para o meu corpo e vi penas, vi asas no lugar de braços e garras no lugar dos meus pés. Foi quando tudo se apagou e a consciência me fugiu.

Não sei quanto tempo fiquei apagada, mas o céu já estava escuro lá fora. Isso foi o suficiente para me fazer levantar num pulo. O dia tinha passado e ido embora. Meu pobre pai deve estar desesperado.

- Vai com calma. Você dormiu o dia todo. Precisa comer algo e me dizer quem é.

Nesse momento, paralizei novamente. Ele já sabia. Como sabia?

- Eu devia ter desconfiado quando perguntou quem eu era. Vocês duas são tão parecidas que na floresta podiam ser a mesma pessoa. Mas, eu devia ter insistido. Quem é você?

As coisas voltaram ao tamanho normal e quando olhei para baixo, vi que meus braços e pernas estavam no lugar. Mas, mesmo assim, não consegui me soltar dele antes e agora estava na casa dele. Era melhor não o irritar até conseguir um plano para escapar.

- Meu nome é Flora. Eu estava na clareira procurando por minha mãe, ela se chamava Meredith também. Quem é você?

Dessa vez, foi o momento dele de congelar no lugar.

- Você é a filha de Meredith.

Aguardei, o encarando. Eu respondi a pergunta dele, mas, ele não respondeu a minha. E eu teria muitas outras perguntas para ele.

- Eu sou Felipe. Amigo da sua mãe.

Muito vago. Respirei fundo e olhei nos seus olhos chocados. Eram de um castanho escuro e estavam arregalados.

- Bom, Felipe, não sei se você percebeu, mas, eu sou a pessoa mais sem informação dessa conversa. Então, seria muito gentil da sua parte me fornecer alguma. Começando por: Minha mãe está viva? E onde posso a encontrar.

- Você definitivamente deve ter puxado o lado do seu pai, porque Meredith é muito mais sútil que isso. Mas, acredito que eu deva mesmo me perdoar pelo terrível mal entendido que cometi e Meredith vai querer me matar quando descobrir o que eu fiz. Respondendo suas perguntas, sim, ela está viva. Poderia estar melhor, mas, está viva. Você não pode encontrá-la agora. Está em uma situação… complicada. E eu preciso devolver você o mais rápido possível, antes que te descubram. Porque aí sim, e vou estar morto.

No mesmo momento, abracei a cabeceira da cama, me mantendo firme no lugar.

- Ah, não mesmo. Eu não vou sair daqui até ver minha mãe. Eu esperei por ela durante 10 anos e não vou sair daqui até a encontrar e saber porque ela nos abandonou.

Ele ainda me encarava com os olhos arregalados. Então, parou, respirou fundo e soltou um riso estrangulado, esfregando o rosto com a mão direita.

- Tudo bem, vou te contar uma história que acho que vai explicar muita coisa. Mas, antes, você precisa comer algo. Sua palidez está começando a me assustar.

Fiquei em silêncio enquanto ele se encaminhou para a mesa da pequena cozinha. Aproveitei para entender o ambiente em que eu estava. Era apenas um cômodo, não havia divisórias. A cozinha, a sala e o quarto só se direfernciavam pelas funções dos móveis que se aglomeravam em pontos diferentes da pequena casinha. Era acolhedora de um modo único. Senti novamente o cheiro de flores e vi de onde vinham.

A cozinha em que Felipe agora procurava alguma coisa, ficava em frente à cama que eu estava, separada apenas pela lareira pequena. Na outra metade da casa, havia um pequeno armário e uma mesa com algumas cadeiras. Foi ali que ele me apoiou assim que chegamos. Na mesa, haviam vários livros, cheios de flores secando.

- Acho que isso ainda está bom.

Ele me passou um pedaço de pão duro, queijo e um copo de água.

- Obrigada.

Dei uma mordida no pão duro e senti o estômago roncar pela primeira vez. Devorei o queijo que estava mais macio, tomando coragem para terminar de comer o pão.

- Bom, vamos começar do começo. Sua mãe era amiga da minha mãe, elas cresceram juntas, brincando na floresta. As duas eram filhas de uma longa linhagem druida. Assim como eu e você.

Ele me deixou absorver essa informação por alguns momentos. Agora que ele disse isso, fazia muito sentido. O jardim dela era admirado por todos e continuava vivo e colorido por meses de seca. Sua mãe amava ervas, tinha uma para cada problema. Era considerada uma boticária talentosa. Eu nunca tive essas habilidades. Bom, nunca havía tentando, na verdade.

- Sua mãe acabou se apaixonando por um príncipe e decidiu se casar com ele. Mas, na época, a sacerdotisa, quem comandava os druidas, decidiu que a magia de sua mãe não poderia ser misturada com a linhagem impura do príncipe. Ela ameaçou sua mãe, avisando que se Meredith realmente as deixasse por ele, algo terrível aconteceria. Minha mãe se chamava Flora, elas eram como irmãs.

Nesse momento, ele me olhou, cheio de significado. Minha mãe havia me dado o mesmo nome da mãe dele.

- E onde está sua mãe agora?

Ele fez uma careta de dor e continuou.

- Quando Meredith decidiu fugir com o rapaz, minha mãe a ajudou. No entanto, não demorou muito e a sacerdotisa ficou sabendo e em sua raiva, puniu minha mãe, retirando suas habilidades e sua fala. Para que ela nunca mais a pudesse trair. Não satisfeita, fez um preparo e envenenou o príncipe. Sua mãe tentou de tudo, mas a sacerdotisa havia feito um veneno de sangue. Esse tipo de veneno é poderoso e só pode ser elaborado por quem tem o ódio no coração. E Meredith nunca foi capaz de sentir ódio, então, não conseguia manipular ou anular o feitiço.

Meu pai. Essa mulher havia envenenado o meu pai. Como eu nunca soube de nada disso?

- Sua mãe, em desespero, foi buscar ajuda de quem você nunca deveria pedir. Dos goblins. Eles fizeram um acordo com sua mãe. Salvariam o seu príncipe, se ela os prometesse sua primeira filha. Assim, ela fez.

Minhas mãos foram ao meu rosto, tentando esconder o choque que senti.

- Flora, a raiva é um veneno que consome a sua alma. O que a sacerdotisa fez, foi direcionar esse ódio para seu pai. Então, o ódio que ela sentia, consumia ele e não ela. Quase como um vínculo mesmo. Enquanto ele morria, ela ficava mais forte. Era um veneno vivo. Os goblins surpreenderam a sacerdotisa e a mataram.

- Assim, a raiva dela deixaria de existir e meu pai não sofreria mais…

- Exatamente. Com o suporte da sua mãe e de suas habilidades, ele foi se fortalecendo e se recuperando a cada dia. Quando ele assumiu o trono e suas responsabilidades, já estava curado e sua mãe, esperando sua primeira filha. Você.

Meu corpo amoleceu. Senti lágrimas queimarem meus olhos. Aquela história estava sendo demais para mim.

- Sua mãe criou proteções para te proteger. Tentou te esconder. Mas, eles estavam cada vez mais próximos de te encontrar, por causa do cheiro da magia dela em você. Ela ajudou minha mãe a recuperar a fala, mas, não a magia, então não havia muito o que fazer. Meredith suprimiu a sua magia e tentou esconder seu cheiro de todas as formas. Quando elas perceberam que enquanto sua mãe estivesse com você, a colocaria em perigo, ela foi embora.

- Quando eu tinha 8 anos…

- Eu tinha 10 quando tia Meredith veio morar com a gente.

Meus olhos se voltaram para os dele, em choque. Tia… tia Meredith. Minha mãe esteve a vida toda ao lado dele. E eu cresci sem minha mãe.

- Nossas mães conseguiram convencer os goblins que o bebê havia morrido de maneira trágica e, em desgosto, sua mãe partiu deixando seu pai para trás. Ela colocou um feitiço na casa, todos que entrassem com intenções ruins, não a veriam e se perguntassem a alguém, a pessoa não se lembraria de você.

- Mas, o que aconteceu com ela? Você disse “Como você escapou?”

- Porque sua magia acordou. Quando fazemos 18 anos, nossa magia fica mais forte. Aconteceu o mesmo comigo e sua mãe viu que não poderia te esconder por mais tempo quando acontecesse. Quando você completou 18 anos, ela correu para o goblin com quem fez a barganha e fez uma nova, para distrair ele.

Nesse momento, me desesperei.

- Qual barganha?

- Que seria sua prisioneira e deixaria que ele usasse sua magia. Porque era para isso que ele queria você.

- Precisamos salvar ela. Como vamos salvar ela? Como sei que o que está me falando é verdade?

Nesse momento, houveram batidas na porta e me assustei. A pessoa não esperou e começou a entrar. A reconheci a meio passo da entrada, em confusão.

- Tia Ingrid!

Ela sorriu com doçura e veio em minha direção, me abraçando. Completamente desorientada, a abracei de volta.

- O que está fazendo aqui?

- Ó minha querida. Felipe já te contou tudo?

- Sim, mãe.

Mãe???? Me afastei do abraço, olhando para ela em choque, confusa, traída.

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Olá! Inicialmente, comecei a postar esse conto lá no meu substack, mas aqui eu tenho mais liberdade de edição e é mais meu, sabe? Vou migrar a série aos poucos para cá e criar uma organização para ficar fácil de encontrar depois. ❤️

Gostaria muito de saber a opinião de vocês, coloquem seus comentários.

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