Uma Visita Reconfortante

fevereiro 24, 2026

← Anterior        Série A Princesa 


♫⋆。 Escutando…
Quando cheguei, tudo aconteceu tão rápido que mal consegui reagir. Uma das cozinheiras me viu da janela e saiu correndo para chamar meu pai, que não demorou mais do que minutos para aparecer no meio da cozinha e me puxar para um abraço. Logo em seguida, se afastou, sem me soltar, o rosto vermelho, e começou a falar alto.

- Você está bem? Está ferida? Está segura? - me examinou rápido e quando viu que eu estava bem, voltou ao monólogo - Como você pode fazer uma coisa dessas com seu próprio pai! Eu procurei você em todos os cantos, chamei meus melhores soldados, íamos saindo agora atrás de você! Como você pode abandonar seu pobre pai assim! - me abraçou de novo - Eu já perdi sua mãe, se perder você, eu não tenho mais sentido.

Nesse momento, eu já estava chorando e o abraçando de volta, me sentindo extremamente culpada.

- Oh, meu querido pai. Me perdoe, não foi minha intenção ficar tanto tempo fora. Fui buscar pistas de mamãe na nossa clareira e me perdi ao voltar, as coisas mudaram tanto desde que ela estava aqui.

Dei poucas informações e torci para ele não perguntar mais, já emendando o tópico.

- Tia Ingrid que me encontrou! Hoje pela manhã! Me trouxe de volta, mas algo aconteceu e ela teve que voltar às pressas para casa.

- Ingrid esteve aqui ontem mesmo, fui eu quem lhe deu a notícia. Devo um grande favor a ela por isso. Por ser tão boa amiga de sua mãe e por tanto que fez por nós quando sua mãe se foi. Ah, como devo tantos favores a ela, só Deus sabe o tanto.

- Pai, preciso comer algo, estou realmente muito faminta.

- Claro, venha, venha! Realmente, precisa se alimentar e descansar. Aproveito e lhe apresento a um jovem rapaz que tive a ocasião de conhecer após seu sumiço e logo se prontificou a nos guiar nas buscas hoje. Disse que conhece bem aquela floresta.

Uma intuição estranha se alojou em meu peito. Mas, continuei sorrido para meu pai, não deixando a sensação crescer.

- Claro, meu pai. Só vou me refrescar primeiro e o encontro na sala de jantar.

Quando ele se virou para sair, voltei às pressas para a porta da cozinha e recolhi os livros que deixei escondidos no canto, atrás de um banco. Conferi que meu pai havia se retirado e que ninguém me observava e levei os livros o mais rápido que pude para meu quarto.

Pensei em escondê-los em muitos cantos, mas todos iriam parecer suspeitos. Optei pelo truque mais antigo, esconder à plena vista. Misturei eles à minha bagunça pessoal de livros de romance que estavam sobre minha mesa.

Fui até o banheiro anexo e, minha banheira estava cheia de água quentinha! Tinha que agradecer à Lana, ela era um amor e ao saber de meu retorno deve ter se apressado em encher a banheira para que eu pudesse me sentir bem. Quando coloquei os pés gelados na água quente, meu corpo já relaxou. Prometi à mim mesma que não demoraria, porque meu pai me esperava, mas, meus olhos pareciam pesados demais.

Não sei quanto tempo adormeci ali, mas, acordei em um susto com a água gelada. Tentando me reconhecer depois de acordar tão subitamente, vi um corvo sentado no parapeito da janela. Ele me encarou de volta.

- Ora, ora, tudo bem com você? - ele virou a cabeça de lado, como se entendesse o que eu falei - Qual seu nome? - ao que ele apenas fez uma pequena reverência.

Que coisa mais curiosa. Mas, bem que ouvi por aí que corvos eram bem inteligentes. Encaranto mais um pouco as penas brilhantes da ave, uma lembrança me ocorreu.

- Ah! Você deve ser um dos mensageiros de Felipe! Nossa, ele é rápido. Não tenho nada para te passar no momento, mas, se quiser me fazer companhia. Precisamos dar um nome à você, não é mesmo? Será que já tem um nome? - Ele deu um pulinho para a mesa que ficava junto à janela, se aproximando e me encarando.

“Sim, eu tenho um nome. Mas, fiquei curioso. Qual nome você me daria?”

Pulei da banheira em um susto. Ele havia falado comigo? Respirando fundo, fui até a toalha e me sequei, antes que começasse a pensar como só poderia estar louca. Alucinando! Devo ter batido a cabeça em algum momento quando adormeci na banheira. Mas, não sentia dor alguma.

- Você... fala...?

“Me comunico sim. Acha que os animais não se comunicam?” Com isso, viou a cabeça para o outro lado.

Será... Será que são os meus dons druídas acordando? Fazia sentido, mas não deixava de ser muita informação para tão pouco tempo. Vamos, você tem que se acalmar. Em silêncio, comecei a retornar para o quarto, buscando minhas roupas. O corvo não me acompanhou. Coloquei um vestido limpo e prendi o cabelo, tentando manter minha respiração controlada. Antes de sair pelo quarto, voltei ao banheiro, onde a ave me esperava na mesa.

- Bran.

O corvo me encarou, curioso. Saltou para o parapeito da janela novamente e antes de alçar vôo, olhou para mim e disse:

“Gosto desse nome. Bran será então.”

E antes que eu pudesse reagir, ele se foi pela janela. Corri para o parapeito a tempo de ver ele se afastar.

- Se puder, volte logo! - Eu ia gostar da companhia, de alguém para falar livremente sobre esse novo lado da minha vida.

Desci as escadas até a sala de jantar, onde encontrei meu pai já sentado à mesa.

- Ora, achei que você nunca ia chegar. Você não me engana, dormiu na banheira. - Ri desse comentário, meu pai me conhecia muito bem. Seria muito difícil esconder qualquer coisa dele por muito tempo. Espero sinceramente que não seja por muito tempo.

- Sim, meu pai, você acertou.

Ele riu e se levantou para me abraçar novamente. Nesse moemento, alguém entrou na sala em silêncio.

- Aqui está ele! Quem eu queria lhe apresentar. Brian, está minha filha querida, Flora.

Brian sorriu e se aproximou, tomou minha mãe, beijou de leve e me encarou com olhos violeta.

- É um enorme prazer conhecê-la, princesa Flora.

Fiz uma pequena reverência, sem quebrar o contato visual.

- O prazer é meu.

Ele me guiou até uma das cadeiras ao lado do meu pai e puxou para mim. Me sentei ainda o observando. Brian se dirigiu ao outro lado de meu pai, na cadeira à minha frente, me encarando novamente com um sorriso.

- Vamos brindar ao seu retorno, minha filha.

Sem dizer mais uma palavra, brindamos e o almoço foi servido.

← Anterior        Série A Princesa

Olá! Tudo bem? Demorei um pouquinho para postar essa parte, mas está aqui e espero que gostem! :) Quem ainda não leu desde o início, dá uma chance, por favor… Minha primeira estória mais longuinha publicada.

Série A Princesa - Capítulo 2

fevereiro 24, 2026

← Anterior        Série A Princesa        Próximo →



- Tudo bem, minha querida. Você está se sentindo magoada e eu entendo completamente. Perdoe sua mãe e eu. Só queríamos a proteger e não sabíamos mais como. Não podíamos correr nenhum risco, mas eu queria tanto estar na sua vida… Nós pensamos em um plano que funcionou por tanto tempo.

Eu não sabia o que dizer, essa sem dúvida era minha tia Ingrid. Ela era meu maior suporte depois que mamãe se foi.

- Nossos encontros sempre foram tão preciosos e importantes para mim quanto como para sua mãe. Eu sempre trazia notícias suas e de seu pai para ela. Ela sofreu tanto por se afastar de vocês.

Uma parte minha sentiu raiva, já outra, sabia que era irracional e direcionada à pessoa errada depois de tudo que ouvi. Mas, era demais para processar em tão pouco tempo, então me permiti sentir tudo o que tinha para sentir.

- Seu pai está desesperado procurando por você. Fui visitá-los hoje pela manhã e você não estava em nenhum lugar. Felipe, meu filho, ela está tão pálida. O que aconteceu?

Ela me abraçou apertado de novo e comecei a me remexer…

- Mas, como você soube que eu estava aqui? Como não ficou surpresa quando me viu?

- Felipe mandou um passarinho me contar.

Certo, isso fazia sentido… afinal, ele me transformou em um. Eu espero que ele não ficasse transformando pessoas em pássaros por aí para escravizá-las em mensageiros. Teríamos um grande problema aqui se esse fosse o caso. Com esse pensamento, olhei feio para ele.

- Você transforma as pessoas em pássaros para fazer o que você quiser?

Ele levantou as mãos como quem alega inocência.

- Você foi a primeira pessoa que fiz isso e eu estava com medo. Não me culpe por tentar salvar sua mãe. E não, não estou escrevizando ninguém e não sou mimado assim.

Ele concluiu isso com uma careta de raiva.

Pensando com um pouco mais de calma, tudo começava a fazer um sentido desconfortável e estranho na minha cabeça. Após mais alguns minutos encarando os dois e colocando os fatos no lugar, enquanto eles me olhavam com preocupação, suspirei profundamente.

- Tia, precisamos resgatar mamãe.

Ela sorriu para mim, levantando da cama e balançando a cestinha que havia trazido.

- Minha menina corajosa. Vamos ajudar sua mãe, sim! Já temos um plano, na verdade.


Conversamos a noite toda enquanto comíamos todos os quitutes que Flora nos trouxe.

O plano consistia em estabilizar um vinho que minha mãe havia imbuído de seu poder. Ele não estava finalizado e precisava de alguém com uma magia afim da minha mãe, ou seja, a minha. Depois que eu conseguisse estabilizar a poção, íamos invadir uma das festas dos goblins e trocar a bebida. O vinho iria fazer os globins esquecerem quem o dono da magia quisesse e, inicialmente, era para ele me esquecer. Mas, eu estava determinada a adicionar minha mãe nessa conta.

Quando Felipe me encontrou na clareira, ele estava indo até um desses locais que eram realizadas as festas, tentando descobrir modos de se infiltrar. Para a surpresa dele, não encontrou ninguém por lá, o que o havia deixado desconfortável.

Antes de amanhecer, minha tia nos levou até a porta, Felipe me levaria de volta para meu pai, junto com alguns livros para que eu pudesse iniciar meus estudos e começar a treinar minhas habilidades. Apenas quando elas estivessem dominadas, seria possível partir para a próxima etapa e finalizar o vinho. Durante esse período, Felipe iria me fazer visitas para me orientar quanto a magia.


Enquanto caminhávamos por entre as árvores, o silêncio começou a pesar e senti vontade de preencher o vazio. Mas, disse para mim mesma que também precisava conhecer quem estava ao meu lado nessa missão.

- Então, você é filho de tia Ingrid… Flora.

Mantendo a atenção fixa na trilha que apenas ele enxergava, me respondeu apenas com um ‘sim’ cauteloso.

- Hummm… e seu pai?

Entendendo que eu queria conversar, ele jogou o cabelo para trás com uma das mãos, para me encarar e, pela primeira vez, percebi que ele tinha heterocromia. Um de seus olhos era tão claro que quase não parecia ter íris e o outro… preto breu, quase parecendo que não tinha pupila. Como não reparei isso antes?

- Eu normalmente cubro os meus olhos com magia, mas, estou tão cansado dos últimos dias, que a magia escorregou.

Tentei disfarçar minha expressão e me virei para a frente, para a trilha imaginária.

- Não conheço meu pai. Minha mãe disse que ele era misterioso e sumiu como apareceu, mas que havia prometido voltar para ela. Bom, já sabemos que ele não é bom em cumprir promessas.

- Sinto muito.

- Não precisa. Não aprendi a sentir falta de um pai que nunca tive.

Eu soube na hora que aquilo não era totalmente verdade, mas não era o momento.

- E onde vocês moram?

- Em nossa vila, do outro lado do bosque. Você pode, sabe… visitar um dia. É seu lugar também. Acho injusto você ter sido privada de uma parte sua.

Não sei bem como me sentir diante de tanto acolhimento… e da empatia com tudo que senti ao descobrir o que descobri ontem. Felipe parecia um bom rapaz, mesmo a tendo transformado em um pássaro sem seu consentimento.

- Obrigada, é muito gentil da sua parte.

- Bom, de qualquer forma, chegamos.

Ele balançou a cabeça e apontou para a clareira na qual nos encontramos ontem.

- Podemos nos encontrar aqui para as atualizações. Minhas fontes me dizem que é seguro.

- Seus passarinhos escravos?

- Minhas fontes. Não são meus escravos, Flora. São meus mensageiros. Livres.

- Ah, claro. Desculpe.

Falei brincando, tentando quebrar um pouco o gelo.

- Você saberá quando me encontrar. Quando for chamada, vamos combinar aqui, quando a lua estiver alta no céu. Aqui estão seus livros. Se precisar de minha ajuda, é só falar, eu vou saber.

- Obrigada, Felipe.

- Estamos do mesmo lado, Flora.

E com isso, ele se virou e sumiu novamente na sombra das árvores. Respirei fundo, ajustando o peso dos grossos livros com capa de couro nos braços e segui pela trilha que me levava para casa.


← Anterior        Série A Princesa        Próximo →

Olá, estou eu aqui de volta com mais uma parte da história, que já tomou um rumo completamente diferente do que eu imaginei… Mas, vai ficar bom! Foi um insight que tive enquanto estava tomando banho e mudou COMPLETAMENTE a história. Vai ficar um pouquinho mais longo, mas, vai valer muito mais a pena.

Série A Princesa - Capítulo 1

fevereiro 24, 2026


 Minha mãe me dizia que se acreditarmos, podemos fazer o impossível acontecer. Então eu decidi trazer ela de volta.

♫⋆。 Escutando…

Hoje, quando sai escondida pela cozinha, aproveitei para pegar um pão dormido e alguns pedaços de queijo. Não sei quanto tempo vou demorar para encontrar a trilha, mas, não deve demorar. Sigo em frente apenas com minha intuição e resquícios de lembrança. Minha mãe costumava me levar por trilhas na floresta até a nossa clareira e essa era a que usávamos com maior frequência. Flashes de memórias ainda muito vivas apareciam na minha mente das longas conversas que tínhamos em meio as árvores.

Quando completei 8 anos, aconteceu. Ela desapareceu. Acordei já com os gritos do meu pai e naquele momento, ainda enrolada nas cobertas, soube que algo havia acontecido com minha mãe. Não havia rastros a serem seguidos, culpados para interrogar, malas feitas. Tudo estava no lugar. Seu caderno, seus sapatos, seu relicário, presente do meu pai que ela levava sempre junto ao coração. Eu não conseguia compreender.

A luz dourada finalmente encontrou passagem entre as árvores e cheguei à clareira. Intocada, como se tudo estivesse exatamente como a deixamos 10 anos atrás. Eu quase a podia sentir me observando do ponto onde sempre se sentava nas raízes altas do outro lado. Inspirei fundo e fechei os olhos, apenas sentindo os raios do sol e a umidade da floresta sob meus pés, livres da sandália que abandonei em algum lugar no meio da trilha. Meus dedos afundaram na terra gelada de orvalho e o cheiro de verde inundou meus sentidos. Uma brisa acariciou meus cabelos e abri os olhos.

Foi então que vi, alguém estava me observando. Como que vindo do outro lado da clareira, parou a poucos passos do espaço aberto, me observando com olhos atentos. Meus sentidos se aguçaram instantâneamente e um calafrio desceu por minha espinha.

- Como você escapou?

Perguntou o desconhecido, se aproximando. Dei alguns passos para trás, sem saber o que responder.

- Você tem que voltar, antes que descubram e te matem.

Ele acelerou, vindo na minha direção e comecei a andar para trás, buscando o caminho por onde vim. Não fui rápida o suficiente e sua mão gelada se fechou no meu braço. Tentei me desvencilhar mas ele é mais forte que eu.

- O que você está dizendo, eles quem? Me solte, eu não estou entendendo.

Uma dor de cabeça aguda me tirou o ar e apertei com força minha cabeça, tentando arrancar a dor junto com meus cabelos. Mas, como surgiu, ela simplesmente, se foi… nada. Abri os olhos desorientada e de repente o rapaz estava enorme e me segurava em suas mãos com uma delicadeza estranha.

- Temos que ir, antes que notem sua ausência.

Nada fazia sentido, por que tudo estava tão maior? Eu estava sendo carregada e o cenário ao meu redor mudava com uma velocidade muito alta em borrões de tons verde. Não demorou muito e já estávamos novamente entre árvores, mas, eu não reconhecia esse lado da floresta. Um desespero começou a tomar conta de mim, subindo um nó pela garganta. Comecei a me debater, mas os dedos se fecharam um pouco mais ao meu redor.

- Onde você está me levando?

- Pare de se remexer ou vai acabar se machucando. Você está confusa, calma que já vamos chegar em casa.

- Quem é você?

Nesse momento, ele parou e me olhou com atenção. O olhar mudou de surpresa para raiva.

- O que eles fizeram com você? Eles te machucaram?

- Como vou saber de quem você está falando se não me explica?

Eu já estava começando a ficar irritada. Claramente ele estava me confundindo com alguém e eu não queria me envolver nessa bagunça.

- Meredith, fale comigo, o que eles fizeram com você?

Meredith? Aquele nome me paralizou. Ele realmente estava me confundindo com alguém. E por uma coincidência assustadora, essa pessoa tinha o nome da minha mãe. Ele conhecia minha mãe. Parece que sabia até mais do que isso, sabia onde ela estava, com quem estava. Tenho que me aproveitar disso… Se ele desconfiar que pegou a pessoa errada, vai me abandonar aqui.

- Estou com muita dor de cabeça. Estou confusa.

- Eu sabia que não podia confiar neles. Você também sabia. Vamos voltar agora, você descansa e vai ficar melhor.

Fiquei em silêncio o restante do caminho. Tentei acompanhar as mudanças de rotas, pontos de referência, mas, tudo passava tão rápido e estava tão distorcido que precisei fechar os olhos para não ficar tonta e enjoada.

Quando chegamos perto de uma pequena casinha de madeira, ele diminuiu a velocidade e respirou fundo. Abriu a porta empenada de madeira e um calor aconchegante me tomou por completo. A sala era pequena, mas, tão acolhedora e tinha cheiro de flores. Ervas secando em uma janela que parecia pertencer à uma pequena cozinha, que tinha uma mesa de madeira, algumas cadeiras e uma pequena lareira com o fogo crepitante. Era daqui que vinha o calor. Ele me apoiou com delicadeza na mesa e finalmente, o choque me acometeu. Olhei para o meu corpo e vi penas, vi asas no lugar de braços e garras no lugar dos meus pés. Foi quando tudo se apagou e a consciência me fugiu.

…

Não sei quanto tempo fiquei apagada, mas o céu já estava escuro lá fora. Isso foi o suficiente para me fazer levantar num pulo. O dia tinha passado e ido embora. Meu pobre pai deve estar desesperado.

- Vai com calma. Você dormiu o dia todo. Precisa comer algo e me dizer quem é.

Nesse momento, paralizei novamente. Ele já sabia. Como sabia?

- Eu devia ter desconfiado quando perguntou quem eu era. Vocês duas são tão parecidas que na floresta podiam ser a mesma pessoa. Mas, eu devia ter insistido. Quem é você?

As coisas voltaram ao tamanho normal e quando olhei para baixo, vi que meus braços e pernas estavam no lugar. Mas, mesmo assim, não consegui me soltar dele antes e agora estava na casa dele. Era melhor não o irritar até conseguir um plano para escapar.

- Meu nome é Flora. Eu estava na clareira procurando por minha mãe, ela se chamava Meredith também. Quem é você?

Dessa vez, foi o momento dele de congelar no lugar.

- Você é a filha de Meredith.

Aguardei, o encarando. Eu respondi a pergunta dele, mas, ele não respondeu a minha. E eu teria muitas outras perguntas para ele.

- Eu sou Felipe. Amigo da sua mãe.

Muito vago. Respirei fundo e olhei nos seus olhos chocados. Eram de um castanho escuro e estavam arregalados.

- Bom, Felipe, não sei se você percebeu, mas, eu sou a pessoa mais sem informação dessa conversa. Então, seria muito gentil da sua parte me fornecer alguma. Começando por: Minha mãe está viva? E onde posso a encontrar.

- Você definitivamente deve ter puxado o lado do seu pai, porque Meredith é muito mais sútil que isso. Mas, acredito que eu deva mesmo me perdoar pelo terrível mal entendido que cometi e Meredith vai querer me matar quando descobrir o que eu fiz. Respondendo suas perguntas, sim, ela está viva. Poderia estar melhor, mas, está viva. Você não pode encontrá-la agora. Está em uma situação… complicada. E eu preciso devolver você o mais rápido possível, antes que te descubram. Porque aí sim, e vou estar morto.

No mesmo momento, abracei a cabeceira da cama, me mantendo firme no lugar.

- Ah, não mesmo. Eu não vou sair daqui até ver minha mãe. Eu esperei por ela durante 10 anos e não vou sair daqui até a encontrar e saber porque ela nos abandonou.

Ele ainda me encarava com os olhos arregalados. Então, parou, respirou fundo e soltou um riso estrangulado, esfregando o rosto com a mão direita.

- Tudo bem, vou te contar uma história que acho que vai explicar muita coisa. Mas, antes, você precisa comer algo. Sua palidez está começando a me assustar.

Fiquei em silêncio enquanto ele se encaminhou para a mesa da pequena cozinha. Aproveitei para entender o ambiente em que eu estava. Era apenas um cômodo, não havia divisórias. A cozinha, a sala e o quarto só se direfernciavam pelas funções dos móveis que se aglomeravam em pontos diferentes da pequena casinha. Era acolhedora de um modo único. Senti novamente o cheiro de flores e vi de onde vinham.

A cozinha em que Felipe agora procurava alguma coisa, ficava em frente à cama que eu estava, separada apenas pela lareira pequena. Na outra metade da casa, havia um pequeno armário e uma mesa com algumas cadeiras. Foi ali que ele me apoiou assim que chegamos. Na mesa, haviam vários livros, cheios de flores secando.

- Acho que isso ainda está bom.

Ele me passou um pedaço de pão duro, queijo e um copo de água.

- Obrigada.

Dei uma mordida no pão duro e senti o estômago roncar pela primeira vez. Devorei o queijo que estava mais macio, tomando coragem para terminar de comer o pão.

- Bom, vamos começar do começo. Sua mãe era amiga da minha mãe, elas cresceram juntas, brincando na floresta. As duas eram filhas de uma longa linhagem druida. Assim como eu e você.

Ele me deixou absorver essa informação por alguns momentos. Agora que ele disse isso, fazia muito sentido. O jardim dela era admirado por todos e continuava vivo e colorido por meses de seca. Sua mãe amava ervas, tinha uma para cada problema. Era considerada uma boticária talentosa. Eu nunca tive essas habilidades. Bom, nunca havía tentando, na verdade.

- Sua mãe acabou se apaixonando por um príncipe e decidiu se casar com ele. Mas, na época, a sacerdotisa, quem comandava os druidas, decidiu que a magia de sua mãe não poderia ser misturada com a linhagem impura do príncipe. Ela ameaçou sua mãe, avisando que se Meredith realmente as deixasse por ele, algo terrível aconteceria. Minha mãe se chamava Flora, elas eram como irmãs.

Nesse momento, ele me olhou, cheio de significado. Minha mãe havia me dado o mesmo nome da mãe dele.

- E onde está sua mãe agora?

Ele fez uma careta de dor e continuou.

- Quando Meredith decidiu fugir com o rapaz, minha mãe a ajudou. No entanto, não demorou muito e a sacerdotisa ficou sabendo e em sua raiva, puniu minha mãe, retirando suas habilidades e sua fala. Para que ela nunca mais a pudesse trair. Não satisfeita, fez um preparo e envenenou o príncipe. Sua mãe tentou de tudo, mas a sacerdotisa havia feito um veneno de sangue. Esse tipo de veneno é poderoso e só pode ser elaborado por quem tem o ódio no coração. E Meredith nunca foi capaz de sentir ódio, então, não conseguia manipular ou anular o feitiço.

Meu pai. Essa mulher havia envenenado o meu pai. Como eu nunca soube de nada disso?

- Sua mãe, em desespero, foi buscar ajuda de quem você nunca deveria pedir. Dos goblins. Eles fizeram um acordo com sua mãe. Salvariam o seu príncipe, se ela os prometesse sua primeira filha. Assim, ela fez.

Minhas mãos foram ao meu rosto, tentando esconder o choque que senti.

- Flora, a raiva é um veneno que consome a sua alma. O que a sacerdotisa fez, foi direcionar esse ódio para seu pai. Então, o ódio que ela sentia, consumia ele e não ela. Quase como um vínculo mesmo. Enquanto ele morria, ela ficava mais forte. Era um veneno vivo. Os goblins surpreenderam a sacerdotisa e a mataram.

- Assim, a raiva dela deixaria de existir e meu pai não sofreria mais…

- Exatamente. Com o suporte da sua mãe e de suas habilidades, ele foi se fortalecendo e se recuperando a cada dia. Quando ele assumiu o trono e suas responsabilidades, já estava curado e sua mãe, esperando sua primeira filha. Você.

Meu corpo amoleceu. Senti lágrimas queimarem meus olhos. Aquela história estava sendo demais para mim.

- Sua mãe criou proteções para te proteger. Tentou te esconder. Mas, eles estavam cada vez mais próximos de te encontrar, por causa do cheiro da magia dela em você. Ela ajudou minha mãe a recuperar a fala, mas, não a magia, então não havia muito o que fazer. Meredith suprimiu a sua magia e tentou esconder seu cheiro de todas as formas. Quando elas perceberam que enquanto sua mãe estivesse com você, a colocaria em perigo, ela foi embora.

- Quando eu tinha 8 anos…

- Eu tinha 10 quando tia Meredith veio morar com a gente.

Meus olhos se voltaram para os dele, em choque. Tia… tia Meredith. Minha mãe esteve a vida toda ao lado dele. E eu cresci sem minha mãe.

- Nossas mães conseguiram convencer os goblins que o bebê havia morrido de maneira trágica e, em desgosto, sua mãe partiu deixando seu pai para trás. Ela colocou um feitiço na casa, todos que entrassem com intenções ruins, não a veriam e se perguntassem a alguém, a pessoa não se lembraria de você.

- Mas, o que aconteceu com ela? Você disse “Como você escapou?”

- Porque sua magia acordou. Quando fazemos 18 anos, nossa magia fica mais forte. Aconteceu o mesmo comigo e sua mãe viu que não poderia te esconder por mais tempo quando acontecesse. Quando você completou 18 anos, ela correu para o goblin com quem fez a barganha e fez uma nova, para distrair ele.

Nesse momento, me desesperei.

- Qual barganha?

- Que seria sua prisioneira e deixaria que ele usasse sua magia. Porque era para isso que ele queria você.

- Precisamos salvar ela. Como vamos salvar ela? Como sei que o que está me falando é verdade?

Nesse momento, houveram batidas na porta e me assustei. A pessoa não esperou e começou a entrar. A reconheci a meio passo da entrada, em confusão.

- Tia Ingrid!

Ela sorriu com doçura e veio em minha direção, me abraçando. Completamente desorientada, a abracei de volta.

- O que está fazendo aqui?

- Ó minha querida. Felipe já te contou tudo?

- Sim, mãe.

Mãe???? Me afastei do abraço, olhando para ela em choque, confusa, traída.

Série A Princesa         Próximo →

Olá! Inicialmente, comecei a postar esse conto lá no meu substack, mas aqui eu tenho mais liberdade de edição e é mais meu, sabe? Vou migrar a série aos poucos para cá e criar uma organização para ficar fácil de encontrar depois. ❤️

Gostaria muito de saber a opinião de vocês, coloquem seus comentários.