Série A Princesa - Capítulo 2
fevereiro 24, 2026← Anterior Série A Princesa Próximo →

Eu não sabia o que dizer, essa sem dúvida era minha tia Ingrid. Ela era meu maior suporte depois que mamãe se foi.
- Nossos encontros sempre foram tão preciosos e importantes para mim quanto como para sua mãe. Eu sempre trazia notícias suas e de seu pai para ela. Ela sofreu tanto por se afastar de vocês.
Uma parte minha sentiu raiva, já outra, sabia que era irracional e direcionada à pessoa errada depois de tudo que ouvi. Mas, era demais para processar em tão pouco tempo, então me permiti sentir tudo o que tinha para sentir.
- Seu pai está desesperado procurando por você. Fui visitá-los hoje pela manhã e você não estava em nenhum lugar. Felipe, meu filho, ela está tão pálida. O que aconteceu?
Ela me abraçou apertado de novo e comecei a me remexer…
- Mas, como você soube que eu estava aqui? Como não ficou surpresa quando me viu?
- Felipe mandou um passarinho me contar.
Certo, isso fazia sentido… afinal, ele me transformou em um. Eu espero que ele não ficasse transformando pessoas em pássaros por aí para escravizá-las em mensageiros. Teríamos um grande problema aqui se esse fosse o caso. Com esse pensamento, olhei feio para ele.
- Você transforma as pessoas em pássaros para fazer o que você quiser?
Ele levantou as mãos como quem alega inocência.
- Você foi a primeira pessoa que fiz isso e eu estava com medo. Não me culpe por tentar salvar sua mãe. E não, não estou escrevizando ninguém e não sou mimado assim.
Ele concluiu isso com uma careta de raiva.
Pensando com um pouco mais de calma, tudo começava a fazer um sentido desconfortável e estranho na minha cabeça. Após mais alguns minutos encarando os dois e colocando os fatos no lugar, enquanto eles me olhavam com preocupação, suspirei profundamente.
- Tia, precisamos resgatar mamãe.
Ela sorriu para mim, levantando da cama e balançando a cestinha que havia trazido.
- Minha menina corajosa. Vamos ajudar sua mãe, sim! Já temos um plano, na verdade.
Conversamos a noite toda enquanto comíamos todos os quitutes que Flora nos trouxe.
O plano consistia em estabilizar um vinho que minha mãe havia imbuído de seu poder. Ele não estava finalizado e precisava de alguém com uma magia afim da minha mãe, ou seja, a minha. Depois que eu conseguisse estabilizar a poção, íamos invadir uma das festas dos goblins e trocar a bebida. O vinho iria fazer os globins esquecerem quem o dono da magia quisesse e, inicialmente, era para ele me esquecer. Mas, eu estava determinada a adicionar minha mãe nessa conta.
Quando Felipe me encontrou na clareira, ele estava indo até um desses locais que eram realizadas as festas, tentando descobrir modos de se infiltrar. Para a surpresa dele, não encontrou ninguém por lá, o que o havia deixado desconfortável.
Antes de amanhecer, minha tia nos levou até a porta, Felipe me levaria de volta para meu pai, junto com alguns livros para que eu pudesse iniciar meus estudos e começar a treinar minhas habilidades. Apenas quando elas estivessem dominadas, seria possível partir para a próxima etapa e finalizar o vinho. Durante esse período, Felipe iria me fazer visitas para me orientar quanto a magia.
Enquanto caminhávamos por entre as árvores, o silêncio começou a pesar e senti vontade de preencher o vazio. Mas, disse para mim mesma que também precisava conhecer quem estava ao meu lado nessa missão.
- Então, você é filho de tia Ingrid… Flora.
Mantendo a atenção fixa na trilha que apenas ele enxergava, me respondeu apenas com um ‘sim’ cauteloso.
- Hummm… e seu pai?
Entendendo que eu queria conversar, ele jogou o cabelo para trás com uma das mãos, para me encarar e, pela primeira vez, percebi que ele tinha heterocromia. Um de seus olhos era tão claro que quase não parecia ter íris e o outro… preto breu, quase parecendo que não tinha pupila. Como não reparei isso antes?
- Eu normalmente cubro os meus olhos com magia, mas, estou tão cansado dos últimos dias, que a magia escorregou.
Tentei disfarçar minha expressão e me virei para a frente, para a trilha imaginária.
- Não conheço meu pai. Minha mãe disse que ele era misterioso e sumiu como apareceu, mas que havia prometido voltar para ela. Bom, já sabemos que ele não é bom em cumprir promessas.
- Sinto muito.
- Não precisa. Não aprendi a sentir falta de um pai que nunca tive.
Eu soube na hora que aquilo não era totalmente verdade, mas não era o momento.
- E onde vocês moram?
- Em nossa vila, do outro lado do bosque. Você pode, sabe… visitar um dia. É seu lugar também. Acho injusto você ter sido privada de uma parte sua.
Não sei bem como me sentir diante de tanto acolhimento… e da empatia com tudo que senti ao descobrir o que descobri ontem. Felipe parecia um bom rapaz, mesmo a tendo transformado em um pássaro sem seu consentimento.
- Obrigada, é muito gentil da sua parte.
- Bom, de qualquer forma, chegamos.
Ele balançou a cabeça e apontou para a clareira na qual nos encontramos ontem.
- Podemos nos encontrar aqui para as atualizações. Minhas fontes me dizem que é seguro.
- Seus passarinhos escravos?
- Minhas fontes. Não são meus escravos, Flora. São meus mensageiros. Livres.
- Ah, claro. Desculpe.
Falei brincando, tentando quebrar um pouco o gelo.
- Você saberá quando me encontrar. Quando for chamada, vamos combinar aqui, quando a lua estiver alta no céu. Aqui estão seus livros. Se precisar de minha ajuda, é só falar, eu vou saber.
- Obrigada, Felipe.
- Estamos do mesmo lado, Flora.
E com isso, ele se virou e sumiu novamente na sombra das árvores. Respirei fundo, ajustando o peso dos grossos livros com capa de couro nos braços e segui pela trilha que me levava para casa.


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